terça-feira, 26 de junho de 2007

Paris, RJ

Complexos, complicados e simples. E o churume. Temos identificado essas entidades na cidade maravilhosa, nem que seja para afirmarmos: somos complexos! Veja bem...
 
Nos últimos tempos tenho pontuado meus dias com expressões em francês, mesmo tendo detestado Paris. Tenho admirado a idéia de Paris, com seus cigarros, cafés, cultura e amour fou. Eu, que sempre fui avesso aos clichés de revista de turismo, me apaixonei por esses. A transgressão fica pelo fato de não precisar necessariamente ir até a cidade de facto. Não existe de facto no meu sonho.
 
Tenho aplicado a idéia de Paris ao Rio. Tenho vivido o sonho - a foto do entardecer no postal, a vie en rose -, não o concreto, o cotidiano, a fumaça das fábricas parisienses ou a carranca de alguns de seus habitantes. O vento fresco do inverno sopra pelo caminho das ruas e carrega o meu olhar para longe do churume impregnado nas ruas da metrópole. Ele ainda está lá, mas é reconfortante delicadamente não fazer parte dele.
 
Estou curtindo a idéia da Nouvelle Vague. Mas só a idéia. Aqueles filmes continuam um porre.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

O quão alto posso voar?

Se você soubesse, me diria?, pergunto a um estranho na rua que me julgará mais pela minha roupa, mais pelos meus traços que necessariamente pelo que ouviu de mim. É dessa opinião que preciso: olhe para mim com minúcia, perceba o contorno das minhas olheiras e, por favor, não se esqueça da minha nova silhueta – denotações de esforço. O quão forte posso bater minhas asas e o quão nítida e ampla será minha vista lá do alto?

O estranho da rua me chama de louco e sai batendo o pé puto da vida. Pensa que sou um viadinho, que não tenho mais o que fazer e, pior, com seu bermudão de marca e um tênis todo fodido, tem certeza absoluta que tem, afinal, mais o que fazer; ou, ao menos, sai convicto disso. O estranho da rua não quer ouvir lucubrações de um alucinado bem vestidinho. Isso não se repete quando faço a pergunta à ele.

Depois que pronuncio vagarosamente a minha pergunta, ele demora um pouco a responder. Julga-me um sábio: define meus traços necessariamente pelo que ouviu de mim e credita minhas olheiras a intensas noites de lucubrações poéticas e não de bebedeiras baratas. Entretanto, é um cético. “Quando o sol fizer derreter suas asas, meu caro, você vai se esborrachar!...” correndo os dedos em meus cabelos.

Uma afirmação dessas, sobretudo dele, que carrega em si qualidades já mencionadas nesse canal, é difícil de ser digerida com tranqüilidade. Um esquecido ÊLE, já meio verde de asfixia, de repente dá as caras. Caminha no cantinho do quarto de lá pra cá, de cá pra lá, lentamente; revelando-se no feixe de luz da janela vez em quando, embora não produza nenhum som nem pronuncia uma palavra. Com as mãos no queixo, concorda, concorda e concorda. Uma unanimidade, afinal!, para o meu mais completo espanto.

“Você pode continuar voando, não me entenda mal...” e, de súbito, ÊLE pára num halt furioso. “... nem tão perto do chão, nem tão perto do sol”, ponderando docemente. Cada lugar lindo que mencionava ou cada benefício que me dava do vento fresco que sopra a poucos metros do solo, ele percebia que a minha perplexidade anterior dava lugar a uma calma imensa.

“Cínico!” rosnava ÊLE no canto, “No mundo em que vivemos, é tudo ou nada, it’s all or none!”.

“O cheiro e barulho do oceano, eqüidistante e sonante aos mistérios do universo. A certeza da terra firme e o infinito do infinito...”.

“Ah!, mas se teu pai te visse tão medíocre e contentado!”.

“Uma vela para a mãe natureza e uma vela para Deus...”.

E eu, que só queria mesmo a opinião de um estranho, fui bombardeado pela questão por todos os lados. Peço um minuto de silêncio: de que adianta comparar o céu de Ícaro ao de Galileu, afinal, sem ter ainda crescido as asas?

ÊLE se tranquiliza. E ele começa a massagear minhas costas a ver se o atrito estimula o processo.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Meu Sapato Novo

Havia saído para fumar um cigarro lá fora - a lei de Nova York não permite aquela fumaceira charmosa dentro dos bares e boates. Acendi e, no frio, a fumaça do tabaco se misturava à fumacinha produzida pelo calor da minha respiração. Um sujeitinho se aproximou e perguntou se podia lustrar meus sapatos.
 
Eu estava de bom humor, e por isso, na disposição de mostrar a friendliness latina, brasileira, dei um tapinha nas costas dele e menti que havia deixado a carteira lá dentro, logo não poderia pagá-lo pelo serviço. Sorri, falamos um pouco e ele, por fim, disse que lustraria meus sapatinhos detonados pela neve de graça. Um dia você me paga, enquanto agaixava-se.
 
Naquele tempo em que não estava cercado de tanto amor e amigos da vida, com os sentimentos à flor de uma pele umedecida por diversos copos de cerveja, vi meus olhos embaçarem emocionados. Meti a mão na carteira, confessei minha mentira e dei cinco dólares para o sujeito.
 
Hoje vou numa entrevista de emprego. Quando peguei meus sapatos ainda brilhando pela gentileza daquele adorável estranho, lembrei-me dele e das suas sinceridades. Onde estará meu amigo perdido? Será que ainda vaga pelas ruas do Village distribuindo seu sorriso e seu brilho por um mundo que ainda prefere gastar aqueles cinco dólares numa mísera cerveja a mais?
 
Boto meu sapato novo, rezo por ele, e vou passear.

quinta-feira, 10 de maio de 2007

Uma tarde com eles

Conversava com ele, não com ÊLE, porque com ÊLE já não troco muitas palavras. E ele tinha deliciosas três letras minúsculas, sem acento. Estava sentado de pernas humildemente cruzadas; ele e sua voz calma, seu rosto sem rugas. Prostrava a cabeça, abria os olhos sem espanto, desviava o lusco-fusco do rosto com as mãos; ele me dizia: querido, você consegue sentir alguma coisa no ar?

De um canto escuro da sala, ÊLE dá de ombros e acende um baseado. Escuta nossa voz numa trip muito louca, às vezes interrompida por ligações do celular e outras responsabilidades pendentes. Esfrega os olhos vermelhos e nos observa com a visão embaçada. Provavelmente vê muitas cores, porque elas existem - mas as julga clichês do surrealismo. ÊLE dá de ombros e essa será a contestação da noite.

Conversava com ele e ele, sim, me olhava nos olhos e aguardava, ansioso, a última palavra para, então, ter ouvido tudo; articulava-se; gesticulava um pouco; sublinhava algumas passagens do meu texto; e, enfim, falava até a última palavra para ter a certeza de que falou tudo. Entre nós não havia gordura.

Caretas, resmungava ÊLE de longe, acinzentado por dois maços e meio de cigarro. ÊLE dá de ombros.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

O Retorno

Senti falta daqui. Um espaço assim onde eu consigo falar tudo o que me foge a cabeça no dia a dia, seja por esquecimento ou por falta de ouvintes especificamente interessados. É ainda um livro de viagens, mas, por que não?, vou incluir umas viagens que tenho feito no retorno ao Rio de Janeiro... àquele inferno que é o Rio... à Cidade Maravilhosa.
 
O que sentir pelo Rio de Janeiro? Calor, certamente. Já era o fim de abril quando pensei que nunca mais deixaria de suar. O aniversário da Bruna chegou e, graças a ela, dissipou a massa intergalática estática de ar fervendo que pousava sobre o estado. Também, o calor da gente. Não de todo mundo porque o carioca não está mesmo, como me havia alertado uma amiga, lá muito bem humorado. Calor de uma gente específica que tem transformado a minha agenda num sonho a que fui em busca lá em Nova York. Tardes com designers e jovens cineastas para a edição de uma revista, reuniões sobre um documentário, pequenas realizações cinematográficas, almoços com minhas ex-chefes, programas culturais e noites escolhidas a dedo. Noites fabulosas, literalmente.
 
Não é a cidade, diz a experiência, é o espírito. Mas aí de lembro do nascer do sol no Arpoador que eu e dois caros amigos presenciamos, e torna-se necessário reverenciar a cidade.
 
Quando não estou engajado em uma dessas atividades fabulosas, tenho passeado muito por aqui - Ipanema ou Copacabana - com a Shaia. Ipod nos ouvidos e óculos escuros, fico só observando o dia passar no rosto das pessoas. Estou cada vez mais sensível, entretanto, a ter que acorrentar a Shaia e levá-la feito uma prisioneira para um banho de sol. Fito seus olhinhos tristes, o pescoço arqueado pelo peso das correntes e tento dizer: "Não fui eu, meu amor, quem inventou isso... Foi ÊLE".
 
Daí começo a pensar NÊLE, cada vez com mais desprezo e cada vez mais frustrado por não ver a minha cadela correndo solta por aí. "Eu também uso uma dessas" repito, é claro, em pensamento. O desafio passa a ser, portanto, dar cabo DÊLE e das coleiras. Na esperança que eu ou Shaia não terminemos atropelados por um desses ônibus frenéticos.

sexta-feira, 23 de março de 2007

Será Adeus?

Muito, muito, muito, mas muito estranho mesmo pensar que daqui a uma semana estarei no avião de volta pro Rio. Depois de quatro meses, de adaptações, novas amizades, momentos (e muitos) d'eu comigo mesmo, depois de explorações e experimentações a que só um forasteiro pode de se dar ao luxo... é chegada a hora de retornar ao mundo real. Será adeus? É uma questão.
 
Pra não perder tempo e não deixar de fazer todas as coisas que guardei para o fim da viagem, tenho inchado meus dias. De manhã cedo, acordo horas antes só para poder descer algumas estações antes do meu trabalho e ver um pouco mais essas ruas que daqui a pouco desaparecerão. Hudson St., Christopher St., Washington Square, 6th Avenue, Chelsea, Ladies Mile, Paradise Café, New York Sports Club, Cupcake Café...
 
Até minhas horas no trabalho não têm sido gastas apenas fazendo Capucccinos ou cupcakes. Tenho trocado uma idéia com os clientes e colegas, dado mais atenção as crianças (o café é anexo a uma loja de livros infantis) e, é claro, tenho provado de pouco a pouco todos os doces daquela loja. Vamos ver no que isso vai dar!
 
Ontem, depois do trabalho, fui assistir uma peça de teatro muito louca chamada "Wake Up Mr Sleepy! Your Unconsious Mind is Dead!" do Richard Foreman. Uma mistura de instalação, dança e uma porção de charadas sobre a consciência que me hipnotizaram. Um barato, literalmente. Eu estava sentado numa almofada no corredor (o assento mais baratinho) na primeira fila. E, bem, por algum motivo, todos os atores ficaram me olhando a peça inteira. Estavam vestidos de soldadinho, com um lenço no rosto e os olhos pintados de um vermelho vivo - calafrios. Fantástico! E ainda fiquei sabendo que o Richard Foreman dá um ciclo de palestras e apresentações por universidades de cinema de todo o mundo através de um projeto chamado Bridges. Estão procurando uma universidade na América Latina. Quem sabe?
 
Com tanta inspiração e intensidade, encontrei com a Juliana porque precisava tomar um drinque e porque ela estava com a Chrissy. Vocês acreditam que eu vou filmar um video-clip com ela??? Nem me amarro muito no som da bichinha, mas vai valer a pena voltar na casa dela e tentar captar aquilo com a câmera da minha querida Juana.
 
Eu e a Ju tratamos de extender essa noite até hoje de manhã e, graças, não tenho que trabalhar! Hoje acho que só saio de casa para o jantar que o pessoal do meu trabalho vai fazer para a minha despedida. Já falaram que vai ter sangria, coquito, vinho, cerveja e sabe-se mais o quê! Então, prenuncia-se mais uma bebedeira, embora o fígado implore pelo contrário.
 
E agora, vou tratar de passar os meus últimos dias com o coração aberto. Acho que está mesmo na hora de voltar e retomar o rumo das coisas - acabar a faculdade, iniciar a minha carreira e retonar ao contato diário de tantas pessoas cuja importância têm sido provada em cada um dos meus dias por aqui. Saudades da mamãe ;). Pela primeira vez na vida, estou finalizando uma viagem dessas com uma serenidaaaaaade. Sem sofrimentos daqueles de arruinar os dias.
 
Vou tratar de comprar uma câmera descartável hoje para documentar isso um pouco, porque não sei se já perceberam mas fotos que são boas, estão em falta. Vou botar umas fotos da peça que eu fui ontem pra dar uma mudada nesse display de fotos do blog - nem eu mais aguento ver essas minhas caras!
 
Um grande abraço e até semana que vem!
 
ps. Não é bem uma despedida do blog - de repente acontece algo de extraordinário e, aí, eu volto.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Uma Visita à Chrissy Dodgers

Ao entrar no apartamento de Chrissy Dodgers naquela noite de terça, um fortíssimo cheiro de jalapeño, chilli e nachos tomava conta do espaço. Quatro gatos e dois cachorros gêmeos ocupavam todos os assentos e seus pêlos deixavam meu nariz vermelho só de pensar.
 
Bem, não todos os assentos. A mãe de Chrissy, indiferente à nossa chegada, estava pousada numa almofada do sofá que, por estar mais baixa que as outras, denunciava sua permanência estendida por ali. Chrissy e seu sorriso fabuloso, incapaz de ser captado por qualquer foto que eu já tinha visto, insistia para que nos sentíssimos à vontade, enquanto equilibrava garrafinhas de Corona Lights, um cigarrinho daqueles e espanava os gatos do sofá imundo. "É uma noite mexicana" anunciava "Kevin está cozinhando pra gente".
 
Chrissy é cantora. Seus shows acontecem muito raramente, sua voz não é lá essas coisas, as letras de suas músicas falam de anjos masculinos e outras besteiras recheadas de puro cliché. Pergunto se ela conhece uma dúzia de cantoras favoritas e, não, ela não parece estar muito informada da cena musical de NYC. Entretanto, é cantora. Não perde a oportunidade de empunhar sua guitarra e mostrar um pouco do seu trabalho. Tem um sorriso fabuloso. Pequenina, veste-se com estilo e bonézinhos charmosos.
 
Kevin não é seu namorado. E se fosse, talvez minhas esperanças pela carreira de Chrissy diminuissem mais ainda. Tem seu encantostreetwear, mas quando abre um sorriso, além dos olhos baixos e vermelhos, percebo que seus dentes são cáqui escuro, acavalados, sinuosos, atrapalhados. Kevin é uma figura simpática e silenciosa, que só responde aos impulsos de terceiros, mas não chega a emitir sinal algum.
 
Quando Chrissy começa a cantarolar sobre seus anjos masculinos, os olhos da mãe continuam vidrados na televisão sem som. O programa é uma espécie de "Plantão Médico" da vida real, com tripas, pernas estraçalhadas e tudo mais. Ela ainda não disse nada, o que causa um pequeno desconforto na gente, afinal é a dona da casa - a chefe da família. Parece ter acordado de manhã, carregado o rosto de um pancakedaqueles, sublinhado os lábios finos com um batom sei lá de que cor e ter se estabelecido no sofá, mesmerizada pelos terrores da vida segundo a TV americana.
 
Chrissy termina sua canção passando os dedos pelas cordas do violão e abrindo aquele sorriso de sempre. Batemos palmas, nós e Kevin. Em seguida, acendemos nossos cigarros e um cigarrinho daqueles. Educada e concerned, Chrissy nos oferece um comprimido de Claritin - de um dos muitos frascos de remédio que estão ali, disponíveis num criado mudo - mas eu prefiro não adicionar o antialérgico ao coquetel.
 
Conversa vai, conversa vem, algumas realidades daquela família começam a ser desveladas com uma naturalidade chocante: "A mamãe não parece, mas é uma mulher forte!" sorri Chrissy com seu bom humor habitual "O último namorado dava tanto soco na cara dela e ela nem caía nem nada. Podia ser uma boxeur". A mãe abre um sorrisinho, será de orgulho?, que interrompe seu transe. O contrangimento fica só do nosso lado. "Quase foi esfaqueada por ele, mas isso..." é interrompida pela protagonista da história. "Acho que isso ia acabar me derrubando".
 
"Kevin quase foi esfaqueado também" Chrissy diz em tom confessional. Depois eu ficaria sabendo que Kevin é um viciado em heroína emrehab. Está limpo [sic] há três anos e sua apatia vem de um dos vários medicamentos.
 
Os nachos estão prontos e, bem, estamos todos famintos. Começo a falar um pouco sobre o Brasil, sobre as pessoas normais e brilhantes e batalhadoras da nossa terra. Não sei se o faço por eles, pelo bem da nossa conversa ou por mim mesmo - que depois de cervejas, cigarrinhos daqueles e com imagens de facas, socos, drogas pesadas e carreiras de pouco sucesso já estou enveredando por uma badtrip. E o calor de casa é revigorante. A sensação de estar no meio de uma gente tão estranha já não me parece ruim - são personagens, são inspirações. Desde que o samba é samba, é assim.
 
Despedimo-nos de Chrissy e de sua família. Saímos cheios de curiosidade pelo metrô de Nova York - provavelmente o espaço mais fabuloso em que estive no mundo, sociologicamente falando. Quero ir mais na casa dessa gente toda: enxergar de perto as suas loucuras, chafurdar suas histórias escabrosas e, ainda assim, porque sou um sujeito perseverante, me encantar com sorrisos tão incríveis e misteriosos como os de Chrissy e Kevin.