Anos passam e a mesma dúvida me cai: serei capaz, ainda nessa vida, de escrever um poeminha? Acho que não, nunca mais. Os poeminhas me surgiram como terapia, uma análise psicológica, um tratamento de início-meio-e-fim. Se no começo eram extremamente ridículas e românticas, acabaram transformadas por Baudelaire e ficaram mais secas; até que se fundiram com a prosa, indefinidamente. A métrica me parece gordura, a rima, um artifício mais apropriado à música.
Ademais, meu último amigo poeta, que sumiu sem dizer onde ia, que escrevia:
- Amor, sua cadela hipócrita!...
e outros absurdos, meu último amigo poeta, não é lá exemplo que se siga. A menos, talvez, que aquela viagem à Petrópolis, só eu e ele, comendo pesto de manjericão da horta, dormindo bêbado de vinho e sexo e curando ressacas na piscina... a menos que ela realmente aconteça. Dodecáfonos, sonetos, haikais, sei lá (mas só por um fim de semana).
De resto, é die angst da metrópole, seus blocos de prédio, seus vãos de infinitas janelas, seu texto dividido em parágrafos, suas redenções paleativas e localizadas, suas lombadas explicativas, suas pequenas novelas que desembocam em outras, seu silêncio cheio de ruído.
sábado, 4 de abril de 2009
sábado, 24 de janeiro de 2009
Obama é o caralho!
Não, não tenho nada contra ele... Aliás, não tenho nada nem contra o pobre do Bush, que sai da Casa Branca à sapatadas. Tenho, na verdade, algo contra o estabelishment político de Washington, suas guinadas oportunistas e posições com aquele cheirinho de maracutaia.
Mas tampouco sobre isso é meu pequeno post.
Alguém mais aguenta ouvir falar sobre ele? Sobre a incrível trajetória do negro que ascendeu ao cargo de homem-mais-poderoso-do-mundo?
O Globo de hoje (24/01/09) tem um quadro que, aparentemente, responde à essa pergunta.
Na primeira página, a manchete principal anuncia que Obama conserta as cagadas ecumêmicas de Bush; Merval Pereira (sic) destaca o Poder Inteligente inaugurado pela administração Obama; na seção Opinião, dois dos artigos são sobre Ele; o Anselmo fala do barackberry dele...
E tem ainda a parte mais louca: a que diz que o governo [brasileiro] mantém 35 mil terceirizados. Num PS muito oportuno, a especulação é: "Se Obama governasse aqui...". Sobre essas tenho duas considerações.
Em primeiro lugar, se o governo os demitisse, a manchete seria provavelmente: "Crise atinge o funcionalismo e Governo demite 35 mil". Em segundo lugar, talvez essa especulação tivesse lugar mais apropriado na parte de opinião, já que de jornalística, ela não tem nada.
Lá nos idos dos meus 12, 13 anos, estudando História do Brasil, às vezes me perguntava se não teria sido melhor se tivéssemos sidos colonizados pela Inglaterra ou se a invasão holandesa tivesse vingado. Um pouco mais adiante, encantado com as férias na Disney, me perguntava se melhor não estaríamos como colônia dos Estados Unidos - oh!, as ruas policiadas pelo FBI, a capital, com aquela arquitetura chiquérrima de Washington e mais alguns devaneios semelhantes.
Pois veio o dia em que eu cresci e essas especulações foram caindo, num desses aggiornamentos que só a idade e alguma leitura da realidade traz.
A impressão geral é que, uma ou outra, a grande imprensa guarda minhas infantilidades ou resolveu reproduzi-las afim de atender às espectativas infantis e deslumbradas das piruas, dos Paulo Skaf e dos Diogo Mainardi de plantão. Um processo educativo (sic).
Eleger um um presidente negro num país racista com o slogan "hope over fear" em 2008 é bacana, eu concordo. Mas o que de inédito tem isso, sobretudo para nós brasileiros que elegemos, sem brados de "kill him!", um ex-retirante-nordestino-sindicalista num país classista com o slogan "deixar a esperança vencer o medo" em 2001?
No mais, o que de Negro Americano tem Obama? Filho de um membro da elite queniana e de uma white american, Obama se formou nas universidades de Columbia e na Harvard, em Ciências Políticas, Relações Internacionais e Direito.
Acho que, em matéria de mudança, prefiro a nossa, mesmo que, em nosso caso, os jornais destacassem apenas o "temor dos mercados" que, diga-se, atualmente só nos causam temor.
-------------------------------------------
Nota de Rodapé:
Depois de um discurso histórico em Berlim, uma posse histórica em Washington e um primeiro ano de governo que já é histórico antes mesmo de acontecer... Acho que História mesmo seria feita se a Administração Obama começasse fazendo valer os tratados assinados na Convenção de Genebra e as regras do Direito Internacional Público ao condenar, verbal e ativamente no CS/ONU, os ataques de Israel à Faixa de Gaza (de que, oportunamente, a grande imprensa parou de falar para cobrir esse auê todo).
Mas tampouco sobre isso é meu pequeno post.
Alguém mais aguenta ouvir falar sobre ele? Sobre a incrível trajetória do negro que ascendeu ao cargo de homem-mais-poderoso-do-mundo?
O Globo de hoje (24/01/09) tem um quadro que, aparentemente, responde à essa pergunta.
Na primeira página, a manchete principal anuncia que Obama conserta as cagadas ecumêmicas de Bush; Merval Pereira (sic) destaca o Poder Inteligente inaugurado pela administração Obama; na seção Opinião, dois dos artigos são sobre Ele; o Anselmo fala do barackberry dele...
E tem ainda a parte mais louca: a que diz que o governo [brasileiro] mantém 35 mil terceirizados. Num PS muito oportuno, a especulação é: "Se Obama governasse aqui...". Sobre essas tenho duas considerações.
Em primeiro lugar, se o governo os demitisse, a manchete seria provavelmente: "Crise atinge o funcionalismo e Governo demite 35 mil". Em segundo lugar, talvez essa especulação tivesse lugar mais apropriado na parte de opinião, já que de jornalística, ela não tem nada.
Lá nos idos dos meus 12, 13 anos, estudando História do Brasil, às vezes me perguntava se não teria sido melhor se tivéssemos sidos colonizados pela Inglaterra ou se a invasão holandesa tivesse vingado. Um pouco mais adiante, encantado com as férias na Disney, me perguntava se melhor não estaríamos como colônia dos Estados Unidos - oh!, as ruas policiadas pelo FBI, a capital, com aquela arquitetura chiquérrima de Washington e mais alguns devaneios semelhantes.
Pois veio o dia em que eu cresci e essas especulações foram caindo, num desses aggiornamentos que só a idade e alguma leitura da realidade traz.
A impressão geral é que, uma ou outra, a grande imprensa guarda minhas infantilidades ou resolveu reproduzi-las afim de atender às espectativas infantis e deslumbradas das piruas, dos Paulo Skaf e dos Diogo Mainardi de plantão. Um processo educativo (sic).
Eleger um um presidente negro num país racista com o slogan "hope over fear" em 2008 é bacana, eu concordo. Mas o que de inédito tem isso, sobretudo para nós brasileiros que elegemos, sem brados de "kill him!", um ex-retirante-nordestino-sindicalista num país classista com o slogan "deixar a esperança vencer o medo" em 2001?
No mais, o que de Negro Americano tem Obama? Filho de um membro da elite queniana e de uma white american, Obama se formou nas universidades de Columbia e na Harvard, em Ciências Políticas, Relações Internacionais e Direito.
Acho que, em matéria de mudança, prefiro a nossa, mesmo que, em nosso caso, os jornais destacassem apenas o "temor dos mercados" que, diga-se, atualmente só nos causam temor.
-------------------------------------------
Nota de Rodapé:
Depois de um discurso histórico em Berlim, uma posse histórica em Washington e um primeiro ano de governo que já é histórico antes mesmo de acontecer... Acho que História mesmo seria feita se a Administração Obama começasse fazendo valer os tratados assinados na Convenção de Genebra e as regras do Direito Internacional Público ao condenar, verbal e ativamente no CS/ONU, os ataques de Israel à Faixa de Gaza (de que, oportunamente, a grande imprensa parou de falar para cobrir esse auê todo).
sexta-feira, 7 de novembro de 2008
Ficcão IV
Uma ponta de alegria me toma, ficcional e não como todos os outros sentimentos. Olho ao redor, a casa e seu amontoado de lembranças, que há pouco te recebeu, que guardou suas digitais pelas paredes e ainda guarda um pouco do seu cheiro. Fico feliz por isso.
O mundo tão largo, tão grande, tão cheio e você, tão único – espalhado por aqui e pelos rastros que vão riscando a cidade. Vou imaginando o desenho extenso sem que o sorriso me saia, por imaginar o momento em que os pontos se cruzam, em que eu te encontro e em que tudo resulta bem, reunido.
Quem vai provar, afinal, se não nós, que passa, sim, de teoria débil as especulações de que você, ao se deixar tanto pelo caminho, desaparecerá? Que tuas linhas se misturarão às linhas de mijo desenhadas na calçada, aos passos sem antecedente dessa gente que eu não conheço? Se não for você que seja eu – porque uma alegria me toma e, ficcional ou não, vem cheia de ânimo, estofada de êxitos passados. Uma alegria que não me sai e que tampouco tem (apenas ou até) 26 anos, porque te sabe, te enxerga; porque te vê dividindo a essência e se multiplicando. Que seja eu, na medida que continues sendo.
O mundo tão largo, tão grande, tão cheio e você, tão único – espalhado por aqui e pelos rastros que vão riscando a cidade. Vou imaginando o desenho extenso sem que o sorriso me saia, por imaginar o momento em que os pontos se cruzam, em que eu te encontro e em que tudo resulta bem, reunido.
Quem vai provar, afinal, se não nós, que passa, sim, de teoria débil as especulações de que você, ao se deixar tanto pelo caminho, desaparecerá? Que tuas linhas se misturarão às linhas de mijo desenhadas na calçada, aos passos sem antecedente dessa gente que eu não conheço? Se não for você que seja eu – porque uma alegria me toma e, ficcional ou não, vem cheia de ânimo, estofada de êxitos passados. Uma alegria que não me sai e que tampouco tem (apenas ou até) 26 anos, porque te sabe, te enxerga; porque te vê dividindo a essência e se multiplicando. Que seja eu, na medida que continues sendo.
segunda-feira, 3 de novembro de 2008
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Reticências
Mais um dia, meu filho, mais um dia...
Estávamos parados no ponto de ônibus e o velho o dizia sem jamais completar a sentença. Eu não era o filho, mas, por Deus!, era capaz de compreender. Nesse mundo de meias palavras, a gente entende cada coisa que, vai saber...
É o ônibus que não chega nunca, a resposta que nunca é dada e mais alguns temas do cotidiano que nem valem a pena serem listados. Quem, meu Deus, se não vós, essa entidade tão oblíqua aí no céu... Quem irá visitar as minhas agonias, para não dizer meu blog?
E como irei eu, meu Deus? Como irei eu arrumar uma agoniazinha sofisticada e transformá-la num filme engraçadinho ou num livro queridinho do hype?
A minhazinha, coitada, curtida e pontilhada de reticências mais oblíquas que vós - recém um pouco de tudo, ex um pouco de mais um pouco. A minhazinha que passeia nas ruas e transfere, que interage e transfere e que, de quando em quando, enche o saco dos amigos, afastando assim, os únicos leitores.
Podes ver o quão empoeirado anda esse pequeno espaço? Se ele precisasse de eco para respirar, estaria asfixiado. Talvez por isso o velho me prometa um dia e o ponto me prometa um ônibus. Pequenas esperanças, afinal...
Estávamos parados no ponto de ônibus e o velho o dizia sem jamais completar a sentença. Eu não era o filho, mas, por Deus!, era capaz de compreender. Nesse mundo de meias palavras, a gente entende cada coisa que, vai saber...
É o ônibus que não chega nunca, a resposta que nunca é dada e mais alguns temas do cotidiano que nem valem a pena serem listados. Quem, meu Deus, se não vós, essa entidade tão oblíqua aí no céu... Quem irá visitar as minhas agonias, para não dizer meu blog?
E como irei eu, meu Deus? Como irei eu arrumar uma agoniazinha sofisticada e transformá-la num filme engraçadinho ou num livro queridinho do hype?
A minhazinha, coitada, curtida e pontilhada de reticências mais oblíquas que vós - recém um pouco de tudo, ex um pouco de mais um pouco. A minhazinha que passeia nas ruas e transfere, que interage e transfere e que, de quando em quando, enche o saco dos amigos, afastando assim, os únicos leitores.
Podes ver o quão empoeirado anda esse pequeno espaço? Se ele precisasse de eco para respirar, estaria asfixiado. Talvez por isso o velho me prometa um dia e o ponto me prometa um ônibus. Pequenas esperanças, afinal...
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
segunda-feira, 30 de junho de 2008
Opiniões Leves
Leblon, que bairro é esse? Tenho pensado bastante sobre ele e não com amor ou carinho. Ele vem acompanhado de algumas frases ou expressões que ouvi nos últimos tempos: "Blocos de carnaval não cabem no Leblon" ou "É o quadrilátero das vaidades".
Penso no Leblon, nos bares e boates do Leblon, nas ruas e nos cinemas, e acabo redundando na mesma sensação. É uma construção de Manoel Carlos (ô, homonimozinho que foram me arrumar!), uma construção de uma classe média inteiramente descolada (no mal sentido) e que se chama de classe média só para se protejer de sequestro.
Leblon... Pensei numa lista tipo "Dez motivos para se odiar o Leblon", mas logo entendi que estaria jogando TOP TEN um jogo deles. Então, sim... as boates do Leblon são basicamente a Melt e a Bardot, paroxismos do metido à besta. Então, sim... o Cinema Leblon virou point de sôci do Santo Augustinho (tente ver algo como Indiana Jones lá), e a Dias Ferreira, de celebridades que "fogem" dos papparazi. Mas acho que não preciso de uma lista, basta ver.
Basta ver a organicidade de bairros como Ipanema e Copacabana - complexos e multifacetados, donos de si, à merce de nada mais que si, de cara para favelas simpáticas ou medonhas (a opção é sua) e incorporados de uma canalhice carioca que é só daqui.
Basta ver aquela feiurinha de Botafogo que, vez ou outra nos surpreende com uma vilinha bucólica, uma casinha ali perdida no cinza. Basta ver a nova Cinelândia se formar na Voluntários da Pátria durante o festival do Rio e também o que acontece em restaurantes jurássicos como o Manolo na Bambina.
Basta ver o verde imenso do Jardim Botânico, que entra nas casas com seu ar gelado e transforma tudo em uma floresta urbana. Basta ver a rua do Catete e seus hotéis centenários (e de segredos centenários). Basta ver as pensões e os travecos da Glória... E daí por diante.
Nada disso cabe no Leblon. Um dia deve ter cabido, mas agora não. E um dia... meu Deus, um dia aquela gente vai entender como essa história de "não cabe" é cafona e como a essência do Rio de Janeiro é justamente caber tudo (bem, cabe até o Leblon!).
Costumava destilar meu desagrado com a Barra da Tijuca, mas aquilo lá é tão longe que faz até algum sentido.
Penso no Leblon, nos bares e boates do Leblon, nas ruas e nos cinemas, e acabo redundando na mesma sensação. É uma construção de Manoel Carlos (ô, homonimozinho que foram me arrumar!), uma construção de uma classe média inteiramente descolada (no mal sentido) e que se chama de classe média só para se protejer de sequestro.
Leblon... Pensei numa lista tipo "Dez motivos para se odiar o Leblon", mas logo entendi que estaria jogando TOP TEN um jogo deles. Então, sim... as boates do Leblon são basicamente a Melt e a Bardot, paroxismos do metido à besta. Então, sim... o Cinema Leblon virou point de sôci do Santo Augustinho (tente ver algo como Indiana Jones lá), e a Dias Ferreira, de celebridades que "fogem" dos papparazi. Mas acho que não preciso de uma lista, basta ver.
Basta ver a organicidade de bairros como Ipanema e Copacabana - complexos e multifacetados, donos de si, à merce de nada mais que si, de cara para favelas simpáticas ou medonhas (a opção é sua) e incorporados de uma canalhice carioca que é só daqui.
Basta ver aquela feiurinha de Botafogo que, vez ou outra nos surpreende com uma vilinha bucólica, uma casinha ali perdida no cinza. Basta ver a nova Cinelândia se formar na Voluntários da Pátria durante o festival do Rio e também o que acontece em restaurantes jurássicos como o Manolo na Bambina.
Basta ver o verde imenso do Jardim Botânico, que entra nas casas com seu ar gelado e transforma tudo em uma floresta urbana. Basta ver a rua do Catete e seus hotéis centenários (e de segredos centenários). Basta ver as pensões e os travecos da Glória... E daí por diante.
Nada disso cabe no Leblon. Um dia deve ter cabido, mas agora não. E um dia... meu Deus, um dia aquela gente vai entender como essa história de "não cabe" é cafona e como a essência do Rio de Janeiro é justamente caber tudo (bem, cabe até o Leblon!).
Costumava destilar meu desagrado com a Barra da Tijuca, mas aquilo lá é tão longe que faz até algum sentido.
Assinar:
Postagens (Atom)