segunda-feira, 23 de junho de 2008

Trompe l'Oeuil

Começa por tentar decifrar o rosto dela, portanto começa, o que já é um avanço. Explica que está pensando num desenho, uma nova obra de arte, nos seus olhos fundos e dramáticos, no nariz que começa aqui e termina ali, de forma tão poética, para definir os parâmetros da boca - um blá-blá-blá que seria interpretado de cínico pelos entendidos de arte; mas que, para nós, pobres mortais interessados no amor e na fagulha de uma frase dessas, não tem nada de cinismo.

E olha... "Fica parada, Macabéia!"; "Olha pra baixo, olha pra cima"; "Vem vindo, pára aqui na minha frente"; "Encosta sua mão no meu peito"; "Tudo pela perspectiva, querida".

Seu avô já lhe dissera, é melhor assim. Que os romances comecem numa mentira poética, e não numa virilidade cruel ou numa mentira cretina. E poética se repetia desde então, pois dizia até para o vendedor de bicicletas que buscava o ar num movimento diferente e não um de casa pro trabalho mais ligeiro.

"Quero ver o resultado!", ela diz embevecida, o que já é um encontro; "Quero que você, depois, me diga", o que já é uma deixa; e sai espiralando a bunda, pois "quem sabe ele me pinta inteira?". Portanto, uma expectativa.

"De um encontro bobinho, meu deus! De uma besteira e já temos tanto!", se vangloria. Tudo pela perspectiva! E se embrenha na folha, no traço, vai se afeiçoando, tratando-o com carinho, desenhando a lembrança, que é mais bonita que a cara, e fazendo-a mais bonita ainda. Uma mentira poética, mais uma vez, mais uma vez.

Diante do resultado, colorido, desconstruído, sombreado, editado, trata-se de um trompe l'oeuil de sentimento e tempo. Uma elipse até o determinado encontro e, pronto!, fiat lux!, risca-se o fósforo e luz!

"Quero ver o resultado!", diz ele um pouco desconfiado. E, dessa vez, a mão dela vem sem mais delongas.

terça-feira, 3 de junho de 2008

sábado, 22 de março de 2008

Opiniões Fortes

Li recentemente o mais novo livro de JM Coetzee, ainda não publicado no Brasil, chamado "Diaries of a Bad Year" (Diários de um Ano Ruim). Nele, à parte de uma ficção bacana, o autor profere uma série de palestras sobre grandes temas e pequenas questões cotidianas. Como só tenho meu pequeno blog para falar dessas coisas, resolvi compilar algumas e compartilhar com os leitores, se é que eles existem.

Fiz algumas leituras recentemente muito distantes do habitual - a cerca, sobretudo, da história do Brasil. Essas leituras foram divididas em duas partes: livros do Ensino Médio e livros de pensadores brasileiros (em grande parte concatenados no excelente "Formação do Pensamento Político Brasileiro" de Francisco Weffort). Contei também com a memória para revisitar as salas de aula daquela época de escola.

Pude, assim, identificar as imensas discrepâncias de interpretação da nossa trajetória enquanto país entre as duas fontes.

É chocante perceber que nos ensinaram (e, provavelmente, continuam ensinando), por exemplo, que a atualmente celebradíssima mudança da corte de Lisboa para o Rio de Janeiro deveu-se exclusivamente aos acontecimentos políticos da Europa do século XIX. Igualmente chocante, é como essa transferência é encarada como um "presente" (uma "dádiva") da dinastia dos Bragança para a pobre colônia esquecida ao sul do Equador - especialmente quando é amplamente disponível e difundido o pensamento de figuras como Antônio Vieira, José Bonifácio Andrada, Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros.

Essa noção é claramente nociva à formação de uma identidade brasileira consciente da importância do país mesmo enquanto colônia. Passada ainda nos tempos de escola, ela permeia o nosso imaginário com uma história simplória, passiva e servil que parece estar a favor de interesses vários, que não o da formação de uma sociedade crítica e capaz de identificar e criar soluções para o país.

É sabido, por exemplo, que a transferência da corte para o Brasil já era alvitada pela dinastia dos Bragança mesmo antes das invasões napoleônicas. Pelo fato da colônia ter ultrapassado a metrópole em riquezas e importância geopolítica, o Brasil era vislumbrado como a salvação para uma dinastia que governava o país extremamente decadente que era Portugal.

Mesmo a relação entre a metrópole e a colônia fica deturpada nos livros didáticos do Ensino Médio, como pude verificar na obra de Weffort. Um exemplo é o do terremoto que devastou a cidade de Lisboa na segunda metade do século XVIII e dos socorros brasileiros para reparar a catástrofe, na forma de empréstimos a juros baixos - bem diferente do autocracia e tirania de Portugal sobre o Brasil que é passada nessas fontes.

O episódio da nossa independência também é bastante esclarecedor. Pressionado pelas cortes portuguesas, D. João VI retorna a Portugal e deixa seu filho aqui. Essa medida é interpretada nos livros didáticos de história muitas vezes de forma passional e ingênua: Pedro de Alcântara teria se encantado pelas terras tropicais, por exemplo, teria se apegado ao Brasil. Não deixa de ser uma ironia a essa versão que Pedro, vendo os Bragança ameaçados no trono português e diante de turbulências no governo brasileiro, tenha deixado o Brasil (que ele, supostamente, tanto amava) à própria sorte, com um filho de 5 anos em garantia.

A minha interpretação é de um varão tentando e, habilmente, conseguindo perpetuar a sua dinastia em duas coroas. Pode ser que não esteja correta, mas entendo que o ensino tal qual é passado elimina qualquer interpretação, contrária ou mesmo favorável. 

Aquela sociedade crítica, capaz de criar versões para história passada e mesmo para a corrente, se vê amarrada e ditada. A consequência imediata disso é, por exemplo, uma imprensa que é incontestável, mesmo sendo dominada por atores (grupos econômicos e, muitas vezes,  transnacionais) que pouco têm de altruístas. São capazes de levantar e derrubar governos, legitimar ditaduras e crimes de lesa-pátria, tendo uma sociedade com uma atuação, aí sim, passiva, simplória e servil.

(a continuar...)

quinta-feira, 20 de março de 2008

Alga

E mais uma vez chegara a uma ilha, pensou ao sentir a areia no rosto, invadindo a boca, e ao ver o nativo se aproximando para arrancar-lhe um bife da perna. O rosto dele me é familiar: um rosto mastigado pelo tempo e pelo sal que, sem espelho, já não se enxergava fazia anos - também um náufrago, deixado por dezenas de anos no meio do mar. Ao percebe-lo acordado se espanta!, mais uma coisa viva!, no meio daquele pedaço de terra ingrato que só lhe dava côco, água da chuva e sementes, muitas sementes. À confirmação de que está vivo reage com nenhum assombro, tenta arrancar alguma resposta: Você está bem? Qual o seu nome? De onde você vem? Tenta descobrir sua língua.

E ele, mais uma vez numa ilha, soergueu-se e caiu com força, rosto colado à areia. Escutou o velho náufrago fazer suas perguntas e permaneceu - ai de mim enfrentá-lo ou ouvi-lo; que o mar me trague de volta, me cuspa n'outro canto. Observava o rosto do companheiro e pensava: nunca, mais nunca mesmo. Quis dizê-lo, mas foi carregado à força até um porto seguro. Sentado na poltrona de plantas, o velho ofereceu água. Durante os goles, escutou-o sobre a cabana, sobre os côcos e a rotina dos dias. Não se detinha, entretanto, pois era distraído pela delícia d'água doce gole a gole.

Você pode viver aqui, lhe disse meio convite, e o hóspede refestelou-se para terminar a distração com um soninho de horas! Mas para tal, prosseguiu rude e ignorante como devem ser todos há muito afastados das boas maneiras, para tal, dedo em riste, vai precisar trabalhar!

No seu redor, a cabana eram folhas de coqueiro escoradas em uma complexa armação de restos de navios, e as estacas eram adornadas com estranhos desenhos, e os móveis tinham um formato inédito, uma utilização inusitada. Se precisava subir bem alto nos coqueiros para arrancar seu fruto, o velho havia inventado um guindaste; se precisava arrancar a carne do côco, talhara uma concha afiada. Que mais pudemos fazer, pensava o recém chegado, senão esperarmos outro barco, outro naufrágio, outra ilha? 

E o velho respondia num tom sábio e antigo: podemos ser!, olha só como estou sendo! Pegou-o pelo braço inconsciente das assaduras e levou-o consigo para lhe mostrar algo escondido. Estou aqui já faz décadas!, ou acha que eu nunca pensei isso tudo que você está pensando? Fala-me o que está pensando, vamos ver se é diferente?

Mas ele estava era mudo. Emudecido. Caminhou resignado até às atrações do velho náufrago sem dar um pio. Viu e ouviu um tipo de poesia que ele imprimia nas pedras, com lascas de madeira e montinhos de areia sobre a terra atendo-se apenas ao tema - desvarios do exílio numa ilha deserta! Lamentos, glórias, desafios. Sou como o limo que dá nessas pedras, professava o velho, sobrevive ao mar, ao sal e ao sol. Sobrevive ao calor e ao frio. É, sem poder ser, sozinho num pequeno pedaço de terra que só dá côco, água da chuva e sementes, muitas sementes. Os peixes que davam aqui perceberam seu predador, foram nadar num mar vizinho. Desvarios que o novato sentia seus dali alguns anos, embora se apegasse à vontade de que algum navio vivo lhe salvasse.

De volta ao acampamento, o velho lhe ofereceu uma mistura de raizes. Vai lhe fazer bem, acredite no que eu lhe digo: é a sílfide, um entorpecente, que lhe faria entrar em contato com os espíritos da ilha. Eles existem, falou como se tivesse certeza. Aliás existem mais coisas aqui do que julga a sua vã consciência. Além dos espíritos, também tem os demônios, as criaturas da noite, os canibais do outro lado da ilha. Você não pode ir lá, mas de jeito nenhum! Aquele lugar sombrio, que lugar mais terrível. Dizem, mas nisso não tenho certeza, que lá também vivem dez indiazinhas, todas virgens, prontas para saciar essa que é maior nostalgia dos náufragos. Nisso não tenho certeza, ao esvasiar completamente seu olhar por alguns mil segundos.

E ele estava era mudo. Emudecido. Segurou a sílfide com uma das mãos e com a outra coçou a cabeça indeciso. É um entorpecente mesmo?, pensou até cheirá-lo e quase engasgar de vez. 

Findos os mil segundos, o velho pegou também a sua porção e prosseguiu o sermão com: É uma erva sagrada, rapaz!, sempre o foi. Linda e branca, dá debaixo do solo, escondida por entre as plantas ordinárias. Toma e aproveita que o portal é finito e logo se fecha. Leve a mistura à boca e deixe-a misturar-se com a sua saliva, deixe-a reagir com as suas enzimas, deixe-a transformar a química do seu corpo. É uma erva sagrada, rapaz!, repetiu.

Botaram a mistura na boca juntos e não foram necessários mil segundos para que o velho lhe participasse da sensação que a droga causava no corpo: na barriga, no sentir do vento, no sentir da água. Vem comigo!, gritou num sopetão, olha que maravilha é pular e cantar?, num giro, num agudo, numa cambalhota n'areia. Vem! Levante-se! E aí já estava debatendo-se nas ondas, estirando-se nas pedras, sorrindo e entristecendo numa ginástica abdominal aplicada.

Será que o estou sentindo também?, passou a mão na barriga. Será que se imitá-lo tresloucado poderei senti-lo?

Levantou-se e berrou bem alto como se tentasse sentir a garganta entorpecida no grito. Chamou primeiro um navio e depois, tal que se adequasse, aos espíritos que não iam na sua vã consciência, e quando o viu, o velho náufrago, desaparecer dentro da cabana, talvez uma reza, uma conversa em privado, viu-se cara-a-cara com sua própria loucura. Vou é procurar minhas virgens!, respirou portanto. Essa erva sagrada, vou te contar um negócio, nem um baratinho!

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Ficção III

“Estou sendo deixado?” pergunto com um tom arrogante como se fosse uma maleta prestes à explodir num canto do aeroporto. E ele responde que com os olhos tímidos que não, que me irá abraçar e esperar o melhor para nós dois.

    “Eu vejo você em mim, talvez sejamos parte de um mesmo explosivo, não sei”. Trata-se de uma suposição, mas me contenta como resposta. Talvez afinal não sejamos assassinos um do outro, talvez sejamos algozes, em sociedade, da explosão, do caos eminente, dessa hecatombe devir. Não nos apartamos porque não seria nada saudável nos sentarmos no canto do aeroporto, na composição lotada do trem, na praça pública.

    Assim, construo um lar para nós dois, com o que lhe posso oferecer, com meu sustento. Por vezes tenho a desconfortável sensação que lhe tenho de afagar e entreter como um bufão para que não principie ou permita que seu timer seja desligado. “Estar prestes, não significa estar quase” lhe digo “estar quase não significa ter sido detonado”, pois a lógica dos explosivos não é a mesma do mundo.

    Conto-lhe parábolas dos nossos semelhantes como aquelas cestas de Argel carregadas por enzimas inocentes e frágeis. Era preciso furar o bloqueio do exército francês cumprir o trajeto na euforia dos pied noir igualmente inocentes e eufóricos para dar nos cafés, nos pontos de ônibus. “Nós ainda nos estamos conhecendo”, lhe peço, imitando seus olhos tímidos para não intimidar.

    Daí, furamos o bloqueio das portas de casa e esperamos a condução no ponto sem nos sentarmos no banquinho para não dar pinta de ilícitos. Assim como no ônibus quase vazio permanecemos de pé, colados um no outro, a deixar nosso enredo misturar-se à fala dos outros poucos passageiros que jamais se furtam de embarcar e desembarcar à nosso despeito.

    A cidade tampouco se esquiva de ir se transformando de bairro em bairro, de Jardim Botânico em Botafogo e depois em Copacabana e depois em Ipanema. Tal que ele me dá uma orquídea, um insulto, se aproveita de mim e, em seguida, me leva ao Posto 9, seguindo essa seqüência. Posso prever a sua reação quando andarmos até o Leblon, mas já não temos tempo para aparências ou superficialidades. “Vai ser aqui mesmo, ao ar livre, no meio da juventude, nessa gente que daqui a pouco vai aplaudir o sol se pôr detrás da silhueta daquela favela”.

    Abraço-me a ele. “O quão alto posso voar?” repito a pergunta de quando nos conhecemos e ele apenas deu de ombros. Pisca o olho pra mim, olha ao redor e, tum!

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Ficção II

Ela pisa com passos firmes pela cidade. Está de preto, toda de preto, tal que não há leitura para o que é calça, o que é blusa, o que é calçado. O cabelo é preto ou vermelho, forte, a pele é branca. Tem cara de aparição, de demônio, de anjo. Pisa com passos firmes, com determinação.

A cidade é colorida à seu modo, são roupas, outdoors, é churume. O barulho é intenso, mas ela, a mulher de negro, não produz nenhum.

Chega em casa. Numa sala pontiaguda, um bebê está sentado no chão, distraído por um trigrezinho de pelúcia, e uma velha ronca na cadeira de balanço. “Mamã, mamã” ele balbucia. Ela tem um olhar trágico, mas que não é expressão ou lágrima. É característica física. Segue para o seu quarto e o bebê lhe estende a mão como quisesse toca-la.

Senta na penteadeira, retoca a maquiagem. Dá tons mais fortes ao batom, enrubesce o rosto de blush, enegrece as linhas dos olhos com lápis.

O bebê engatinha pelo corredor do apartamento precariamente carregando o tigre em uma das mãos, mas com obstinação. “Mamã, mamã”.

E mamã está se pondo bonita no quarto, vestindo um chapéu de flores puídas desses que se vê nos brechós. É rosto e chapéu, pois o corpo ainda está coberto de negro. Levanta a sobrancelha esquerda e seu rosto em pedra imediatamente desmancha, deforma. Envolve uma alpaca violeta no pescoço ao ouvir “Mamã, mamã” já na entrada do quarto.

Lança um olhar rápido e no mesmo brusco se levanta, fecha a porta, fazendo com que o bebê retroceda e sente meio atrapalhado, meio espantado, com o tigre no colo.

Ela envolve uma saia de tule por cima do brim, levanta a blusa deixando à mostra o branco do ventre. Toca o telefone, uma buzina, a campainha e nada, mas nada faz parar o ritual em curso. Descalça e pinta as unhas dos pés.

“Ma-mã!” o bebê vai falando lentamente. “Ma-mã”. Joga-se pra frente e dá na porta com a mão três vezes. Retrocede. “Ma-mã”.

Ela se levanta, vai até a vitrola do quarto. Um allegro. Primeira nota, segunda nota – ela conta nos dedos. E depois os seguintes passos contam a terceira e a quarta e a quinta.

“Ma-mã... Ma-mã... Ma-mã...” até que é interrompido pelo abrir das portas e vê que sua mã já não é sua mã. Ela se curva até o chão em quase malabarismo, como mostrasse a mistura do chapéu à altura da criança, e no passo da música se movimenta em dança, espasmo ou loucura – se é que seus movimentos não os tivessem misturado.

O bebê está perplexo, mas a observa evoluir com atenção. Um pulinho, um grito, uma reverência. Ele senta o tigrezinho de pelúcia na cabeça e a reverencia de volta. Eles se entreolham – não é sua mã, não é seu filho. Aproximam-se sem fugir do olhar em hipnose. Não há mais buzina nem telefone nem campainha. Há a música num momento de sobriedade e mistério.

Quando pouco mais de um palmo os separa, ele leva os dedos aos lábios dela, sem tirar o tigrezinho do cocuruto. Passa os dedos lentamente como percebesse a grossa textura do batom. Ela morde os lábios pintando o dente e ele leva os dedos vermelhíssimos ao rosto riscando o canto dos olhos com estivesse se maquiando.

A mulher ascende, percorrendo o drama das notas que já vão descendo lentamente, gordurosas e cálidas.

Terminada a música, vem o aplauso. De susto o bebê se agita quase se fundindo ao coro das palmas, com seus olhos mais parecendo duas pequenas aranhas rubras, brilhando! E ela abre os braços e com a ponta dos dedos, sem perder a postura, fecha a porta. 

Quando saca o chapéu da cabeça, ouve seu filho balbuciar lá de fora.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ficção

Ele teve, de repente, que parar diante de você, página em branco. Sentou-se, sentiu medo e, ao esquivar-se, sentiu como estivesse fugindo. Já havia fugido do destino algumas vezes, mas também já o havia abraçado e nesses momentos foi quando esteve mais feliz. É preciso lembrar disso, repete algumas vezes depois de digitar as primeiras palavras. Preciso lembrar disso. Do abrir das cortinas. Do ato. Dos aplausos.

Esquecível é o nada, a reflexão sem fato, o ócio sem um prévio ou subseqüente desassossego. Esquecíveis são dias como aqueles, anteriores ao repente, em que não havia registrado nada, senão um par de números de entrega delivery no celular. Delivery, pois tampouco queria sair para comprar uma pizza ou um cigarro na padaria três quadras de seu apartamento.


Para buscar inspiração, ligou a TV. Pago por ela, repetia ao lembrar-se das contas que sugavam como um ralo o dinheiro de sua conta em débito automático. Preciso de uma recompensa por essa fortuna. Egito antigo, saia justa, paraíso tropical e dramas familiares podiam bem lhe compor uma história, um tema. E uma prostituta, concubina grávida de Tutancâmon lhe veio a cabeça, mãe de um príncipe bastardo cujo sangue nunca lhe traria fortuna. Como, enfim, nomear uma personagem egípcia sem torná-la homônima duma figura consagrada pela história, pelos registros que pudesse encontrar na Wikipedia? Como nomear o filho? Como nomear as colegas?

Seus personagens não terão nomes, serão somente pronomes pessoais e adjetivos. Bela, mas pobre, encontrou na boceta uma fonte de renda. Desgraçada pela gestação, acabou desempregada.

Será um épico de uma ordinária figura sofrendo problemas mundanos, sem heroísmos nem catástrofes. Será beneficiada pela bondade de estranhos, como ele deseja que todos sejam os que na gestação estejam desamparados. Olha para o telefone e sofre um pouquinho pelo silêncio insistente de sua campainha.

Será um épico duma abandonada pela idéia. Por que não abandona tudo, vai para um estranho rincão na Galiléia e jura para um trouxa qualquer que é virgem e que lhe fora anunciada secretamente a maternidade do filho de Deus? Não estaria mentindo – o Faraó é Deus, afinal.

Resolverá contar com a clemência do Faraó – ausente, de intocável reputação e de frutos incertos. Será que lhe irá proporcionar um conforto eterno? Será?

Antes de botar um ponto final na história, sua bela esposa adentra o apartamento do trabalho e suspira: "Como estou cansada!". Ele desliga o computador e vai implorar uma rapidinha para aliviar a tensão.


E você, já não tão em branco quanto antes, não abriu cortina nenhuma nem arrancou aplausos de ninguém. Mas, quem sabe um dia essa egípcia ainda não levanta as tralhas e vai ganhar o mundo?...