sexta-feira, 5 de junho de 2009

Sobre Anti Sentimentos do Século Passado

Pensei em escrever uma coisa ou duas para uma amiga. Ela anda por aí cabisbaixa...

No seu rosto, vi dia desses, um quê de "me tira daqui" e, pensei:

"Minha filha, bem vinda ao mundo real..."

O pensamento prosseguia, mas como quem dá ouvidos para o que os outros dizem, não fechei os ouvidos para suas retardices conseguintes. E elas viriam, inevitavelmente, representadas por anti-sentimentos do século passado.

Explico:

Chamo Anti-Sentimentos do Século Passado a negação da mais-valia (Karl Marx) por criaturas capitalistas. Se atualmente digo que os Estados Unidos são uma nação extremamente atrasada é por suas lamúrias serem extramamente Século Passado. Foi só sairem de uma bolha para estranharem, espernearem.

"Meus filhos [nesse caso, os Estados, todos, Virginia, Texas, Vermont...], sejam bem vindos ao mundo real!".

Notem a exclamação para eles em oposição às reticências para ela, posto que faz diferença. Minha amiga não viveu a bonança e a aproveitou com arrogância e deslumbre. Nem, tampouco, vem se desdizendo, inaugurando [sic] a diplomacia do diálogo [sic]. Minha amiga apenas se retorce e se encolhe, depois de uma confortável infância e adolecência de classe-média-pra-rica no Rio de Janeiro.

Eu, que também vi e vivi aquele conto, e que ainda hoje titubeio no terreno oblíquo do mundo real, prefiri, enfim, não lhe dar boas vindas irônicas nem cantar de galo. Apertei seu ombro com força e olhei fundo nos seus olhos até onde pude.

sábado, 4 de abril de 2009

Prosa e Poesia

Anos passam e a mesma dúvida me cai: serei capaz, ainda nessa vida, de escrever um poeminha? Acho que não, nunca mais. Os poeminhas me surgiram como terapia, uma análise psicológica, um tratamento de início-meio-e-fim. Se no começo eram extremamente ridículas e românticas, acabaram transformadas por Baudelaire e ficaram mais secas; até que se fundiram com a prosa, indefinidamente. A métrica me parece gordura, a rima, um artifício mais apropriado à música.

Ademais, meu último amigo poeta, que sumiu sem dizer onde ia, que escrevia:

- Amor, sua cadela hipócrita!...

e outros absurdos, meu último amigo poeta, não é lá exemplo que se siga. A menos, talvez, que aquela viagem à Petrópolis, só eu e ele, comendo pesto de manjericão da horta, dormindo bêbado de vinho e sexo e curando ressacas na piscina... a menos que ela realmente aconteça. Dodecáfonos, sonetos, haikais, sei lá (mas só por um fim de semana).

De resto, é die angst da metrópole, seus blocos de prédio, seus vãos de infinitas janelas, seu texto dividido em parágrafos, suas redenções paleativas e localizadas, suas lombadas explicativas, suas pequenas novelas que desembocam em outras, seu silêncio cheio de ruído.

sábado, 24 de janeiro de 2009

Obama é o caralho!

Não, não tenho nada contra ele... Aliás, não tenho nada nem contra o pobre do Bush, que sai da Casa Branca à sapatadas. Tenho, na verdade, algo contra o estabelishment político de Washington, suas guinadas oportunistas e posições com aquele cheirinho de maracutaia.

Mas tampouco sobre isso é meu pequeno post.

Alguém mais aguenta ouvir falar sobre ele? Sobre a incrível trajetória do negro que ascendeu ao cargo de homem-mais-poderoso-do-mundo?

O Globo de hoje (24/01/09) tem um quadro que, aparentemente, responde à essa pergunta.

Na primeira página, a manchete principal anuncia que Obama conserta as cagadas ecumêmicas de Bush; Merval Pereira (sic) destaca o Poder Inteligente inaugurado pela administração Obama; na seção Opinião, dois dos artigos são sobre Ele; o Anselmo fala do barackberry dele...

E tem ainda a parte mais louca: a que diz que o governo [brasileiro] mantém 35 mil terceirizados. Num PS muito oportuno, a especulação é: "Se Obama governasse aqui...". Sobre essas tenho duas considerações.

Em primeiro lugar, se o governo os demitisse, a manchete seria provavelmente: "Crise atinge o funcionalismo e Governo demite 35 mil". Em segundo lugar, talvez essa especulação tivesse lugar mais apropriado na parte de opinião, já que de jornalística, ela não tem nada.

Lá nos idos dos meus 12, 13 anos, estudando História do Brasil, às vezes me perguntava se não teria sido melhor se tivéssemos sidos colonizados pela Inglaterra ou se a invasão holandesa tivesse vingado. Um pouco mais adiante, encantado com as férias na Disney, me perguntava se melhor não estaríamos como colônia dos Estados Unidos - oh!, as ruas policiadas pelo FBI, a capital, com aquela arquitetura chiquérrima de Washington e mais alguns devaneios semelhantes.

Pois veio o dia em que eu cresci e essas especulações foram caindo, num desses aggiornamentos que só a idade e alguma leitura da realidade traz.

A impressão geral é que, uma ou outra, a grande imprensa guarda minhas infantilidades ou resolveu reproduzi-las afim de atender às espectativas infantis e deslumbradas das piruas, dos Paulo Skaf e dos Diogo Mainardi de plantão. Um processo educativo (sic).

Eleger um um presidente negro num país racista com o slogan "hope over fear" em 2008 é bacana, eu concordo. Mas o que de inédito tem isso, sobretudo para nós brasileiros que elegemos, sem brados de "kill him!", um ex-retirante-nordestino-sindicalista num país classista com o slogan "deixar a esperança vencer o medo" em 2001?

No mais, o que de Negro Americano tem Obama? Filho de um membro da elite queniana e de uma white american, Obama se formou nas universidades de Columbia e na Harvard, em Ciências Políticas, Relações Internacionais e Direito.

Acho que, em matéria de mudança, prefiro a nossa, mesmo que, em nosso caso, os jornais destacassem apenas o "temor dos mercados" que, diga-se, atualmente só nos causam temor.

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Nota de Rodapé:

Depois de um discurso histórico em Berlim, uma posse histórica em Washington e um primeiro ano de governo que já é histórico antes mesmo de acontecer... Acho que História mesmo seria feita se a Administração Obama começasse fazendo valer os tratados assinados na Convenção de Genebra e as regras do Direito Internacional Público ao condenar, verbal e ativamente no CS/ONU, os ataques de Israel à Faixa de Gaza (de que, oportunamente, a grande imprensa parou de falar para cobrir esse auê todo).

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Ficcão IV

Uma ponta de alegria me toma, ficcional e não como todos os outros sentimentos. Olho ao redor, a casa e seu amontoado de lembranças, que há pouco te recebeu, que guardou suas digitais pelas paredes e ainda guarda um pouco do seu cheiro. Fico feliz por isso.

O mundo tão largo, tão grande, tão cheio e você, tão único – espalhado por aqui e pelos rastros que vão riscando a cidade. Vou imaginando o desenho extenso sem que o sorriso me saia, por imaginar o momento em que os pontos se cruzam, em que eu te encontro e em que tudo resulta bem, reunido.

Quem vai provar, afinal, se não nós, que passa, sim, de teoria débil as especulações de que você, ao se deixar tanto pelo caminho, desaparecerá? Que tuas linhas se misturarão às linhas de mijo desenhadas na calçada, aos passos sem antecedente dessa gente que eu não conheço? Se não for você que seja eu – porque uma alegria me toma e, ficcional ou não, vem cheia de ânimo, estofada de êxitos passados. Uma alegria que não me sai e que tampouco tem (apenas ou até) 26 anos, porque te sabe, te enxerga; porque te vê dividindo a essência e se multiplicando. Que seja eu, na medida que continues sendo.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Russo, Petrópolis



Belas imagens da rodovia BR-040 acometida de um russo intenso

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Reticências

Mais um dia, meu filho, mais um dia...

Estávamos parados no ponto de ônibus e o velho o dizia sem jamais completar a sentença. Eu não era o filho, mas, por Deus!, era capaz de compreender. Nesse mundo de meias palavras, a gente entende cada coisa que, vai saber...

É o ônibus que não chega nunca, a resposta que nunca é dada e mais alguns temas do cotidiano que nem valem a pena serem listados. Quem, meu Deus, se não vós, essa entidade tão oblíqua aí no céu... Quem irá visitar as minhas agonias, para não dizer meu blog?

E como irei eu, meu Deus? Como irei eu arrumar uma agoniazinha sofisticada e transformá-la num filme engraçadinho ou num livro queridinho do hype?

A minhazinha, coitada, curtida e pontilhada de reticências mais oblíquas que vós - recém um pouco de tudo, ex um pouco de mais um pouco. A minhazinha que passeia nas ruas e transfere, que interage e transfere e que, de quando em quando, enche o saco dos amigos, afastando assim, os únicos leitores.

Podes ver o quão empoeirado anda esse pequeno espaço? Se ele precisasse de eco para respirar, estaria asfixiado. Talvez por isso o velho me prometa um dia e o ponto me prometa um ônibus. Pequenas esperanças, afinal...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Opiniões Leves

Leblon, que bairro é esse? Tenho pensado bastante sobre ele e não com amor ou carinho. Ele vem acompanhado de algumas frases ou expressões que ouvi nos últimos tempos: "Blocos de carnaval não cabem no Leblon" ou "É o quadrilátero das vaidades".

Penso no Leblon, nos bares e boates do Leblon, nas ruas e nos cinemas, e acabo redundando na mesma sensação. É uma construção de Manoel Carlos (ô, homonimozinho que foram me arrumar!), uma construção de uma classe média inteiramente descolada (no mal sentido) e que se chama de classe média só para se protejer de sequestro.

Leblon... Pensei numa lista tipo "Dez motivos para se odiar o Leblon", mas logo entendi que estaria jogando TOP TEN um jogo deles. Então, sim... as boates do Leblon são basicamente a Melt e a Bardot, paroxismos do metido à besta. Então, sim... o Cinema Leblon virou point de sôci do Santo Augustinho (tente ver algo como Indiana Jones lá), e a Dias Ferreira, de celebridades que "fogem" dos papparazi. Mas acho que não preciso de uma lista, basta ver.

Basta ver a organicidade de bairros como Ipanema e Copacabana - complexos e multifacetados, donos de si, à merce de nada mais que si, de cara para favelas simpáticas ou medonhas (a opção é sua) e incorporados de uma canalhice carioca que é só daqui.

Basta ver aquela feiurinha de Botafogo que, vez ou outra nos surpreende com uma vilinha bucólica, uma casinha ali perdida no cinza. Basta ver a nova Cinelândia se formar na Voluntários da Pátria durante o festival do Rio e também o que acontece em restaurantes jurássicos como o Manolo na Bambina.

Basta ver o verde imenso do Jardim Botânico, que entra nas casas com seu ar gelado e transforma tudo em uma floresta urbana. Basta ver a rua do Catete e seus hotéis centenários (e de segredos centenários). Basta ver as pensões e os travecos da Glória... E daí por diante.

Nada disso cabe no Leblon. Um dia deve ter cabido, mas agora não. E um dia... meu Deus, um dia aquela gente vai entender como essa história de "não cabe" é cafona e como a essência do Rio de Janeiro é justamente caber tudo (bem, cabe até o Leblon!).

Costumava destilar meu desagrado com a Barra da Tijuca, mas aquilo lá é tão longe que faz até algum sentido.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Trompe l'Oeuil

Começa por tentar decifrar o rosto dela, portanto começa, o que já é um avanço. Explica que está pensando num desenho, uma nova obra de arte, nos seus olhos fundos e dramáticos, no nariz que começa aqui e termina ali, de forma tão poética, para definir os parâmetros da boca - um blá-blá-blá que seria interpretado de cínico pelos entendidos de arte; mas que, para nós, pobres mortais interessados no amor e na fagulha de uma frase dessas, não tem nada de cinismo.

E olha... "Fica parada, Macabéia!"; "Olha pra baixo, olha pra cima"; "Vem vindo, pára aqui na minha frente"; "Encosta sua mão no meu peito"; "Tudo pela perspectiva, querida".

Seu avô já lhe dissera, é melhor assim. Que os romances comecem numa mentira poética, e não numa virilidade cruel ou numa mentira cretina. E poética se repetia desde então, pois dizia até para o vendedor de bicicletas que buscava o ar num movimento diferente e não um de casa pro trabalho mais ligeiro.

"Quero ver o resultado!", ela diz embevecida, o que já é um encontro; "Quero que você, depois, me diga", o que já é uma deixa; e sai espiralando a bunda, pois "quem sabe ele me pinta inteira?". Portanto, uma expectativa.

"De um encontro bobinho, meu deus! De uma besteira e já temos tanto!", se vangloria. Tudo pela perspectiva! E se embrenha na folha, no traço, vai se afeiçoando, tratando-o com carinho, desenhando a lembrança, que é mais bonita que a cara, e fazendo-a mais bonita ainda. Uma mentira poética, mais uma vez, mais uma vez.

Diante do resultado, colorido, desconstruído, sombreado, editado, trata-se de um trompe l'oeuil de sentimento e tempo. Uma elipse até o determinado encontro e, pronto!, fiat lux!, risca-se o fósforo e luz!

"Quero ver o resultado!", diz ele um pouco desconfiado. E, dessa vez, a mão dela vem sem mais delongas.

terça-feira, 3 de junho de 2008

sábado, 22 de março de 2008

Opiniões Fortes

Li recentemente o mais novo livro de JM Coetzee, ainda não publicado no Brasil, chamado "Diaries of a Bad Year" (Diários de um Ano Ruim). Nele, à parte de uma ficção bacana, o autor profere uma série de palestras sobre grandes temas e pequenas questões cotidianas. Como só tenho meu pequeno blog para falar dessas coisas, resolvi compilar algumas e compartilhar com os leitores, se é que eles existem.

Fiz algumas leituras recentemente muito distantes do habitual - a cerca, sobretudo, da história do Brasil. Essas leituras foram divididas em duas partes: livros do Ensino Médio e livros de pensadores brasileiros (em grande parte concatenados no excelente "Formação do Pensamento Político Brasileiro" de Francisco Weffort). Contei também com a memória para revisitar as salas de aula daquela época de escola.

Pude, assim, identificar as imensas discrepâncias de interpretação da nossa trajetória enquanto país entre as duas fontes.

É chocante perceber que nos ensinaram (e, provavelmente, continuam ensinando), por exemplo, que a atualmente celebradíssima mudança da corte de Lisboa para o Rio de Janeiro deveu-se exclusivamente aos acontecimentos políticos da Europa do século XIX. Igualmente chocante, é como essa transferência é encarada como um "presente" (uma "dádiva") da dinastia dos Bragança para a pobre colônia esquecida ao sul do Equador - especialmente quando é amplamente disponível e difundido o pensamento de figuras como Antônio Vieira, José Bonifácio Andrada, Joaquim Nabuco, Sérgio Buarque de Holanda, entre outros.

Essa noção é claramente nociva à formação de uma identidade brasileira consciente da importância do país mesmo enquanto colônia. Passada ainda nos tempos de escola, ela permeia o nosso imaginário com uma história simplória, passiva e servil que parece estar a favor de interesses vários, que não o da formação de uma sociedade crítica e capaz de identificar e criar soluções para o país.

É sabido, por exemplo, que a transferência da corte para o Brasil já era alvitada pela dinastia dos Bragança mesmo antes das invasões napoleônicas. Pelo fato da colônia ter ultrapassado a metrópole em riquezas e importância geopolítica, o Brasil era vislumbrado como a salvação para uma dinastia que governava o país extremamente decadente que era Portugal.

Mesmo a relação entre a metrópole e a colônia fica deturpada nos livros didáticos do Ensino Médio, como pude verificar na obra de Weffort. Um exemplo é o do terremoto que devastou a cidade de Lisboa na segunda metade do século XVIII e dos socorros brasileiros para reparar a catástrofe, na forma de empréstimos a juros baixos - bem diferente do autocracia e tirania de Portugal sobre o Brasil que é passada nessas fontes.

O episódio da nossa independência também é bastante esclarecedor. Pressionado pelas cortes portuguesas, D. João VI retorna a Portugal e deixa seu filho aqui. Essa medida é interpretada nos livros didáticos de história muitas vezes de forma passional e ingênua: Pedro de Alcântara teria se encantado pelas terras tropicais, por exemplo, teria se apegado ao Brasil. Não deixa de ser uma ironia a essa versão que Pedro, vendo os Bragança ameaçados no trono português e diante de turbulências no governo brasileiro, tenha deixado o Brasil (que ele, supostamente, tanto amava) à própria sorte, com um filho de 5 anos em garantia.

A minha interpretação é de um varão tentando e, habilmente, conseguindo perpetuar a sua dinastia em duas coroas. Pode ser que não esteja correta, mas entendo que o ensino tal qual é passado elimina qualquer interpretação, contrária ou mesmo favorável. 

Aquela sociedade crítica, capaz de criar versões para história passada e mesmo para a corrente, se vê amarrada e ditada. A consequência imediata disso é, por exemplo, uma imprensa que é incontestável, mesmo sendo dominada por atores (grupos econômicos e, muitas vezes,  transnacionais) que pouco têm de altruístas. São capazes de levantar e derrubar governos, legitimar ditaduras e crimes de lesa-pátria, tendo uma sociedade com uma atuação, aí sim, passiva, simplória e servil.

(a continuar...)

quinta-feira, 20 de março de 2008

Alga

E mais uma vez chegara a uma ilha, pensou ao sentir a areia no rosto, invadindo a boca, e ao ver o nativo se aproximando para arrancar-lhe um bife da perna. O rosto dele me é familiar: um rosto mastigado pelo tempo e pelo sal que, sem espelho, já não se enxergava fazia anos - também um náufrago, deixado por dezenas de anos no meio do mar. Ao percebe-lo acordado se espanta!, mais uma coisa viva!, no meio daquele pedaço de terra ingrato que só lhe dava côco, água da chuva e sementes, muitas sementes. À confirmação de que está vivo reage com nenhum assombro, tenta arrancar alguma resposta: Você está bem? Qual o seu nome? De onde você vem? Tenta descobrir sua língua.

E ele, mais uma vez numa ilha, soergueu-se e caiu com força, rosto colado à areia. Escutou o velho náufrago fazer suas perguntas e permaneceu - ai de mim enfrentá-lo ou ouvi-lo; que o mar me trague de volta, me cuspa n'outro canto. Observava o rosto do companheiro e pensava: nunca, mais nunca mesmo. Quis dizê-lo, mas foi carregado à força até um porto seguro. Sentado na poltrona de plantas, o velho ofereceu água. Durante os goles, escutou-o sobre a cabana, sobre os côcos e a rotina dos dias. Não se detinha, entretanto, pois era distraído pela delícia d'água doce gole a gole.

Você pode viver aqui, lhe disse meio convite, e o hóspede refestelou-se para terminar a distração com um soninho de horas! Mas para tal, prosseguiu rude e ignorante como devem ser todos há muito afastados das boas maneiras, para tal, dedo em riste, vai precisar trabalhar!

No seu redor, a cabana eram folhas de coqueiro escoradas em uma complexa armação de restos de navios, e as estacas eram adornadas com estranhos desenhos, e os móveis tinham um formato inédito, uma utilização inusitada. Se precisava subir bem alto nos coqueiros para arrancar seu fruto, o velho havia inventado um guindaste; se precisava arrancar a carne do côco, talhara uma concha afiada. Que mais pudemos fazer, pensava o recém chegado, senão esperarmos outro barco, outro naufrágio, outra ilha? 

E o velho respondia num tom sábio e antigo: podemos ser!, olha só como estou sendo! Pegou-o pelo braço inconsciente das assaduras e levou-o consigo para lhe mostrar algo escondido. Estou aqui já faz décadas!, ou acha que eu nunca pensei isso tudo que você está pensando? Fala-me o que está pensando, vamos ver se é diferente?

Mas ele estava era mudo. Emudecido. Caminhou resignado até às atrações do velho náufrago sem dar um pio. Viu e ouviu um tipo de poesia que ele imprimia nas pedras, com lascas de madeira e montinhos de areia sobre a terra atendo-se apenas ao tema - desvarios do exílio numa ilha deserta! Lamentos, glórias, desafios. Sou como o limo que dá nessas pedras, professava o velho, sobrevive ao mar, ao sal e ao sol. Sobrevive ao calor e ao frio. É, sem poder ser, sozinho num pequeno pedaço de terra que só dá côco, água da chuva e sementes, muitas sementes. Os peixes que davam aqui perceberam seu predador, foram nadar num mar vizinho. Desvarios que o novato sentia seus dali alguns anos, embora se apegasse à vontade de que algum navio vivo lhe salvasse.

De volta ao acampamento, o velho lhe ofereceu uma mistura de raizes. Vai lhe fazer bem, acredite no que eu lhe digo: é a sílfide, um entorpecente, que lhe faria entrar em contato com os espíritos da ilha. Eles existem, falou como se tivesse certeza. Aliás existem mais coisas aqui do que julga a sua vã consciência. Além dos espíritos, também tem os demônios, as criaturas da noite, os canibais do outro lado da ilha. Você não pode ir lá, mas de jeito nenhum! Aquele lugar sombrio, que lugar mais terrível. Dizem, mas nisso não tenho certeza, que lá também vivem dez indiazinhas, todas virgens, prontas para saciar essa que é maior nostalgia dos náufragos. Nisso não tenho certeza, ao esvasiar completamente seu olhar por alguns mil segundos.

E ele estava era mudo. Emudecido. Segurou a sílfide com uma das mãos e com a outra coçou a cabeça indeciso. É um entorpecente mesmo?, pensou até cheirá-lo e quase engasgar de vez. 

Findos os mil segundos, o velho pegou também a sua porção e prosseguiu o sermão com: É uma erva sagrada, rapaz!, sempre o foi. Linda e branca, dá debaixo do solo, escondida por entre as plantas ordinárias. Toma e aproveita que o portal é finito e logo se fecha. Leve a mistura à boca e deixe-a misturar-se com a sua saliva, deixe-a reagir com as suas enzimas, deixe-a transformar a química do seu corpo. É uma erva sagrada, rapaz!, repetiu.

Botaram a mistura na boca juntos e não foram necessários mil segundos para que o velho lhe participasse da sensação que a droga causava no corpo: na barriga, no sentir do vento, no sentir da água. Vem comigo!, gritou num sopetão, olha que maravilha é pular e cantar?, num giro, num agudo, numa cambalhota n'areia. Vem! Levante-se! E aí já estava debatendo-se nas ondas, estirando-se nas pedras, sorrindo e entristecendo numa ginástica abdominal aplicada.

Será que o estou sentindo também?, passou a mão na barriga. Será que se imitá-lo tresloucado poderei senti-lo?

Levantou-se e berrou bem alto como se tentasse sentir a garganta entorpecida no grito. Chamou primeiro um navio e depois, tal que se adequasse, aos espíritos que não iam na sua vã consciência, e quando o viu, o velho náufrago, desaparecer dentro da cabana, talvez uma reza, uma conversa em privado, viu-se cara-a-cara com sua própria loucura. Vou é procurar minhas virgens!, respirou portanto. Essa erva sagrada, vou te contar um negócio, nem um baratinho!

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Ficção III

“Estou sendo deixado?” pergunto com um tom arrogante como se fosse uma maleta prestes à explodir num canto do aeroporto. E ele responde que com os olhos tímidos que não, que me irá abraçar e esperar o melhor para nós dois.

    “Eu vejo você em mim, talvez sejamos parte de um mesmo explosivo, não sei”. Trata-se de uma suposição, mas me contenta como resposta. Talvez afinal não sejamos assassinos um do outro, talvez sejamos algozes, em sociedade, da explosão, do caos eminente, dessa hecatombe devir. Não nos apartamos porque não seria nada saudável nos sentarmos no canto do aeroporto, na composição lotada do trem, na praça pública.

    Assim, construo um lar para nós dois, com o que lhe posso oferecer, com meu sustento. Por vezes tenho a desconfortável sensação que lhe tenho de afagar e entreter como um bufão para que não principie ou permita que seu timer seja desligado. “Estar prestes, não significa estar quase” lhe digo “estar quase não significa ter sido detonado”, pois a lógica dos explosivos não é a mesma do mundo.

    Conto-lhe parábolas dos nossos semelhantes como aquelas cestas de Argel carregadas por enzimas inocentes e frágeis. Era preciso furar o bloqueio do exército francês cumprir o trajeto na euforia dos pied noir igualmente inocentes e eufóricos para dar nos cafés, nos pontos de ônibus. “Nós ainda nos estamos conhecendo”, lhe peço, imitando seus olhos tímidos para não intimidar.

    Daí, furamos o bloqueio das portas de casa e esperamos a condução no ponto sem nos sentarmos no banquinho para não dar pinta de ilícitos. Assim como no ônibus quase vazio permanecemos de pé, colados um no outro, a deixar nosso enredo misturar-se à fala dos outros poucos passageiros que jamais se furtam de embarcar e desembarcar à nosso despeito.

    A cidade tampouco se esquiva de ir se transformando de bairro em bairro, de Jardim Botânico em Botafogo e depois em Copacabana e depois em Ipanema. Tal que ele me dá uma orquídea, um insulto, se aproveita de mim e, em seguida, me leva ao Posto 9, seguindo essa seqüência. Posso prever a sua reação quando andarmos até o Leblon, mas já não temos tempo para aparências ou superficialidades. “Vai ser aqui mesmo, ao ar livre, no meio da juventude, nessa gente que daqui a pouco vai aplaudir o sol se pôr detrás da silhueta daquela favela”.

    Abraço-me a ele. “O quão alto posso voar?” repito a pergunta de quando nos conhecemos e ele apenas deu de ombros. Pisca o olho pra mim, olha ao redor e, tum!

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Ficção II

Ela pisa com passos firmes pela cidade. Está de preto, toda de preto, tal que não há leitura para o que é calça, o que é blusa, o que é calçado. O cabelo é preto ou vermelho, forte, a pele é branca. Tem cara de aparição, de demônio, de anjo. Pisa com passos firmes, com determinação.

A cidade é colorida à seu modo, são roupas, outdoors, é churume. O barulho é intenso, mas ela, a mulher de negro, não produz nenhum.

Chega em casa. Numa sala pontiaguda, um bebê está sentado no chão, distraído por um trigrezinho de pelúcia, e uma velha ronca na cadeira de balanço. “Mamã, mamã” ele balbucia. Ela tem um olhar trágico, mas que não é expressão ou lágrima. É característica física. Segue para o seu quarto e o bebê lhe estende a mão como quisesse toca-la.

Senta na penteadeira, retoca a maquiagem. Dá tons mais fortes ao batom, enrubesce o rosto de blush, enegrece as linhas dos olhos com lápis.

O bebê engatinha pelo corredor do apartamento precariamente carregando o tigre em uma das mãos, mas com obstinação. “Mamã, mamã”.

E mamã está se pondo bonita no quarto, vestindo um chapéu de flores puídas desses que se vê nos brechós. É rosto e chapéu, pois o corpo ainda está coberto de negro. Levanta a sobrancelha esquerda e seu rosto em pedra imediatamente desmancha, deforma. Envolve uma alpaca violeta no pescoço ao ouvir “Mamã, mamã” já na entrada do quarto.

Lança um olhar rápido e no mesmo brusco se levanta, fecha a porta, fazendo com que o bebê retroceda e sente meio atrapalhado, meio espantado, com o tigre no colo.

Ela envolve uma saia de tule por cima do brim, levanta a blusa deixando à mostra o branco do ventre. Toca o telefone, uma buzina, a campainha e nada, mas nada faz parar o ritual em curso. Descalça e pinta as unhas dos pés.

“Ma-mã!” o bebê vai falando lentamente. “Ma-mã”. Joga-se pra frente e dá na porta com a mão três vezes. Retrocede. “Ma-mã”.

Ela se levanta, vai até a vitrola do quarto. Um allegro. Primeira nota, segunda nota – ela conta nos dedos. E depois os seguintes passos contam a terceira e a quarta e a quinta.

“Ma-mã... Ma-mã... Ma-mã...” até que é interrompido pelo abrir das portas e vê que sua mã já não é sua mã. Ela se curva até o chão em quase malabarismo, como mostrasse a mistura do chapéu à altura da criança, e no passo da música se movimenta em dança, espasmo ou loucura – se é que seus movimentos não os tivessem misturado.

O bebê está perplexo, mas a observa evoluir com atenção. Um pulinho, um grito, uma reverência. Ele senta o tigrezinho de pelúcia na cabeça e a reverencia de volta. Eles se entreolham – não é sua mã, não é seu filho. Aproximam-se sem fugir do olhar em hipnose. Não há mais buzina nem telefone nem campainha. Há a música num momento de sobriedade e mistério.

Quando pouco mais de um palmo os separa, ele leva os dedos aos lábios dela, sem tirar o tigrezinho do cocuruto. Passa os dedos lentamente como percebesse a grossa textura do batom. Ela morde os lábios pintando o dente e ele leva os dedos vermelhíssimos ao rosto riscando o canto dos olhos com estivesse se maquiando.

A mulher ascende, percorrendo o drama das notas que já vão descendo lentamente, gordurosas e cálidas.

Terminada a música, vem o aplauso. De susto o bebê se agita quase se fundindo ao coro das palmas, com seus olhos mais parecendo duas pequenas aranhas rubras, brilhando! E ela abre os braços e com a ponta dos dedos, sem perder a postura, fecha a porta. 

Quando saca o chapéu da cabeça, ouve seu filho balbuciar lá de fora.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Ficção

Ele teve, de repente, que parar diante de você, página em branco. Sentou-se, sentiu medo e, ao esquivar-se, sentiu como estivesse fugindo. Já havia fugido do destino algumas vezes, mas também já o havia abraçado e nesses momentos foi quando esteve mais feliz. É preciso lembrar disso, repete algumas vezes depois de digitar as primeiras palavras. Preciso lembrar disso. Do abrir das cortinas. Do ato. Dos aplausos.

Esquecível é o nada, a reflexão sem fato, o ócio sem um prévio ou subseqüente desassossego. Esquecíveis são dias como aqueles, anteriores ao repente, em que não havia registrado nada, senão um par de números de entrega delivery no celular. Delivery, pois tampouco queria sair para comprar uma pizza ou um cigarro na padaria três quadras de seu apartamento.


Para buscar inspiração, ligou a TV. Pago por ela, repetia ao lembrar-se das contas que sugavam como um ralo o dinheiro de sua conta em débito automático. Preciso de uma recompensa por essa fortuna. Egito antigo, saia justa, paraíso tropical e dramas familiares podiam bem lhe compor uma história, um tema. E uma prostituta, concubina grávida de Tutancâmon lhe veio a cabeça, mãe de um príncipe bastardo cujo sangue nunca lhe traria fortuna. Como, enfim, nomear uma personagem egípcia sem torná-la homônima duma figura consagrada pela história, pelos registros que pudesse encontrar na Wikipedia? Como nomear o filho? Como nomear as colegas?

Seus personagens não terão nomes, serão somente pronomes pessoais e adjetivos. Bela, mas pobre, encontrou na boceta uma fonte de renda. Desgraçada pela gestação, acabou desempregada.

Será um épico de uma ordinária figura sofrendo problemas mundanos, sem heroísmos nem catástrofes. Será beneficiada pela bondade de estranhos, como ele deseja que todos sejam os que na gestação estejam desamparados. Olha para o telefone e sofre um pouquinho pelo silêncio insistente de sua campainha.

Será um épico duma abandonada pela idéia. Por que não abandona tudo, vai para um estranho rincão na Galiléia e jura para um trouxa qualquer que é virgem e que lhe fora anunciada secretamente a maternidade do filho de Deus? Não estaria mentindo – o Faraó é Deus, afinal.

Resolverá contar com a clemência do Faraó – ausente, de intocável reputação e de frutos incertos. Será que lhe irá proporcionar um conforto eterno? Será?

Antes de botar um ponto final na história, sua bela esposa adentra o apartamento do trabalho e suspira: "Como estou cansada!". Ele desliga o computador e vai implorar uma rapidinha para aliviar a tensão.


E você, já não tão em branco quanto antes, não abriu cortina nenhuma nem arrancou aplausos de ninguém. Mas, quem sabe um dia essa egípcia ainda não levanta as tralhas e vai ganhar o mundo?...

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Meu Artista Favorito

Uma piscina de medidas indefinidas. Não há tela nem o ilusório vazio de uma tela em branco. A piscina lhe proporciona um vazio de facto, o transparente, o nada - ou, por que não?, o caldo nutritivo. Ele joga o cenário em cor, uma primeira camada, deixando o espaço formar-se, não por acaso, jura, mas pelo movimento premeditado da tinta. Num canto, pode pingar uma gota de branco e dali fazer surgir um vulto, uma aparição fugaz, a sugestão de um rastro. Uma gota vermelha em outro, e pronto!, tal brancura pode ter se ferido, menstruado ou vestido uma echarpe estravagante.
 
Daquele universo cuida ele. Não por acaso, jura, pois o acaso persegue e, sem surpresas, percebe que não existe. É ele quem estimula a criação daqueles objetos que, na obra final se revelam, como tivessem percorrido um trajeto.
 
É nosso trabalho, portanto, desvendar em reverso a narrativa daquela gênese. Ele nos obriga a descobrir a idade da múmia, o formato original daquela ruína. Se a coluna está pendida ou, quiçá, esfarelada, nos obriga a imaginar o movimento que a desverticalizou.
 
Ele desforma o bolo e o exibe na parede. Pode nos dar uma pista, mas não falará mais nada - como se o olhar de quem o admira fosse o ponto final de sua épica gestação. Meu artista favorito não é egoísta e enxerga a pintura, a primeira das artes, como sujeito, não como objeto. Assim, a divide com o mundo, não por acaso, jura, mas por seu desejo de tê-lo transformado.

para mais informações http://web.mac.com/foliomarcelomello


quarta-feira, 4 de julho de 2007

A Noite dos Sabres

Foi durante a noite dos sabres, onde vi findarem-se os esparadrapos e lencinhos. Foi durante a noite dos sabres, onde o vi deitado na cama implorando uma degola rápida e sem sofrimento. Foi durante a noite dos sabres - que voavam sobre nossas cabeças e restejavam no entorno dos pés, desaforados - e naquela noite, da manhã iminente e luminosa porvir, pouco foi poupado.
 
"Vou gritar e vou chorar para que você entenda a minha dor, seu estúpido!" dizia ele, rastejando, jurando que não havia atirado a primeira lâmina. "Não fui eu, meu caro...", dizia soluçando docemente, quando para meu espanto virou-se erguendo o braço e apontou pr'um canto escuro do quarto, "foi ÊLE!".
 
Tão perplexo, três notas em descendo de uma melodia recorrente no passado vêm num estampido: enfim, trocaram um olhar! Estão se encarando! E no meio do fogo cruzado, sem nem me preocupar com os lanhos que me iam maculando a lívida maciez da pele, o encarava com o rabicho do olho, como se o acusasse de ter quebrado uma regra de ouro. "Foi ÊLE!" repetia sem se dar conta do meu desegrado, "foi ÊLE que te assombra dia a dia, noite a noite - e que agora resolveu atirar para todos os lados, para cima e para baixo!".
 
Foi durante a noite dos sabres, onde o sangue derramado ia endurecendo, coagulando e deixando marcas que quase se podiam confundir com churume. Sangue meu e dele que não nos esquivamos e abrimos nosso peito para o mundo como de costume.
 
"Moi?" sussurrava ÊLE ainda na penumbra, enquanto ouvíamos sua gargalhada fúnebre e incólume à estridência do quarto. "Aqui nesse canto não há sangue nem dor" enquanto demonstrava arqueado, fetal, com as mãos tampando os ouvidos e os olhos uma situação de aparente previlégio.
 
E foi durante a noite dos sabres que, na terra arrasada, decidi não me esconder no escuro do quarto e confiar, apegado às sobras, na iminência da manhã luminosa.

terça-feira, 26 de junho de 2007

Paris, RJ

Complexos, complicados e simples. E o churume. Temos identificado essas entidades na cidade maravilhosa, nem que seja para afirmarmos: somos complexos! Veja bem...
 
Nos últimos tempos tenho pontuado meus dias com expressões em francês, mesmo tendo detestado Paris. Tenho admirado a idéia de Paris, com seus cigarros, cafés, cultura e amour fou. Eu, que sempre fui avesso aos clichés de revista de turismo, me apaixonei por esses. A transgressão fica pelo fato de não precisar necessariamente ir até a cidade de facto. Não existe de facto no meu sonho.
 
Tenho aplicado a idéia de Paris ao Rio. Tenho vivido o sonho - a foto do entardecer no postal, a vie en rose -, não o concreto, o cotidiano, a fumaça das fábricas parisienses ou a carranca de alguns de seus habitantes. O vento fresco do inverno sopra pelo caminho das ruas e carrega o meu olhar para longe do churume impregnado nas ruas da metrópole. Ele ainda está lá, mas é reconfortante delicadamente não fazer parte dele.
 
Estou curtindo a idéia da Nouvelle Vague. Mas só a idéia. Aqueles filmes continuam um porre.

segunda-feira, 28 de maio de 2007

O quão alto posso voar?

Se você soubesse, me diria?, pergunto a um estranho na rua que me julgará mais pela minha roupa, mais pelos meus traços que necessariamente pelo que ouviu de mim. É dessa opinião que preciso: olhe para mim com minúcia, perceba o contorno das minhas olheiras e, por favor, não se esqueça da minha nova silhueta – denotações de esforço. O quão forte posso bater minhas asas e o quão nítida e ampla será minha vista lá do alto?

O estranho da rua me chama de louco e sai batendo o pé puto da vida. Pensa que sou um viadinho, que não tenho mais o que fazer e, pior, com seu bermudão de marca e um tênis todo fodido, tem certeza absoluta que tem, afinal, mais o que fazer; ou, ao menos, sai convicto disso. O estranho da rua não quer ouvir lucubrações de um alucinado bem vestidinho. Isso não se repete quando faço a pergunta à ele.

Depois que pronuncio vagarosamente a minha pergunta, ele demora um pouco a responder. Julga-me um sábio: define meus traços necessariamente pelo que ouviu de mim e credita minhas olheiras a intensas noites de lucubrações poéticas e não de bebedeiras baratas. Entretanto, é um cético. “Quando o sol fizer derreter suas asas, meu caro, você vai se esborrachar!...” correndo os dedos em meus cabelos.

Uma afirmação dessas, sobretudo dele, que carrega em si qualidades já mencionadas nesse canal, é difícil de ser digerida com tranqüilidade. Um esquecido ÊLE, já meio verde de asfixia, de repente dá as caras. Caminha no cantinho do quarto de lá pra cá, de cá pra lá, lentamente; revelando-se no feixe de luz da janela vez em quando, embora não produza nenhum som nem pronuncia uma palavra. Com as mãos no queixo, concorda, concorda e concorda. Uma unanimidade, afinal!, para o meu mais completo espanto.

“Você pode continuar voando, não me entenda mal...” e, de súbito, ÊLE pára num halt furioso. “... nem tão perto do chão, nem tão perto do sol”, ponderando docemente. Cada lugar lindo que mencionava ou cada benefício que me dava do vento fresco que sopra a poucos metros do solo, ele percebia que a minha perplexidade anterior dava lugar a uma calma imensa.

“Cínico!” rosnava ÊLE no canto, “No mundo em que vivemos, é tudo ou nada, it’s all or none!”.

“O cheiro e barulho do oceano, eqüidistante e sonante aos mistérios do universo. A certeza da terra firme e o infinito do infinito...”.

“Ah!, mas se teu pai te visse tão medíocre e contentado!”.

“Uma vela para a mãe natureza e uma vela para Deus...”.

E eu, que só queria mesmo a opinião de um estranho, fui bombardeado pela questão por todos os lados. Peço um minuto de silêncio: de que adianta comparar o céu de Ícaro ao de Galileu, afinal, sem ter ainda crescido as asas?

ÊLE se tranquiliza. E ele começa a massagear minhas costas a ver se o atrito estimula o processo.

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Meu Sapato Novo

Havia saído para fumar um cigarro lá fora - a lei de Nova York não permite aquela fumaceira charmosa dentro dos bares e boates. Acendi e, no frio, a fumaça do tabaco se misturava à fumacinha produzida pelo calor da minha respiração. Um sujeitinho se aproximou e perguntou se podia lustrar meus sapatos.
 
Eu estava de bom humor, e por isso, na disposição de mostrar a friendliness latina, brasileira, dei um tapinha nas costas dele e menti que havia deixado a carteira lá dentro, logo não poderia pagá-lo pelo serviço. Sorri, falamos um pouco e ele, por fim, disse que lustraria meus sapatinhos detonados pela neve de graça. Um dia você me paga, enquanto agaixava-se.
 
Naquele tempo em que não estava cercado de tanto amor e amigos da vida, com os sentimentos à flor de uma pele umedecida por diversos copos de cerveja, vi meus olhos embaçarem emocionados. Meti a mão na carteira, confessei minha mentira e dei cinco dólares para o sujeito.
 
Hoje vou numa entrevista de emprego. Quando peguei meus sapatos ainda brilhando pela gentileza daquele adorável estranho, lembrei-me dele e das suas sinceridades. Onde estará meu amigo perdido? Será que ainda vaga pelas ruas do Village distribuindo seu sorriso e seu brilho por um mundo que ainda prefere gastar aqueles cinco dólares numa mísera cerveja a mais?
 
Boto meu sapato novo, rezo por ele, e vou passear.